Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2013

Vida/morte

Há bocado cruzei-me com um morto. Eu ia para o ISPA (Instituto Superior de Psicologia Aplicada), fazer uma entrevista, quando vi um enorme aparato e uma ambulância do INEM a chegar. Não olhei muito, porque não é coisa bonita de se ver nem eu sou médica, mas de relance vi um corpo deitado no asfalto, uns pés estendidos e a equipa de emergência azafamada, ao mesmo tempo que um verdadeiro circo estava formado em redor. Estive uma hora e meia na entrevista e, quando saí, vi que havia ainda algumas pessoas, um silêncio peculiar, e polícia. Continuei a andar e lá estava o corpo envolvido numa espécie de papel prata. Pelos vistos, não foi possível salvá-lo. Não sei o que aconteceu, se foi atropelado, se teve uma doença súbita, se foi overdose, não faço ideia. Também já vi alguns mortos, em reportagem, e portanto nem sequer foi isso que me impressionou. O que ficou a mexer cá dentro foi aquele contraste entre a vida e a morte. O contraste entre os carros que não pararam de passar, as pessoas que continuaram a caminhar para a frente e para trás, o bulício da cidade, as buzinas, as gargalhadas, as discussões, a música que saía de um café mais adiante, e a inércia daquele corpo finito, indiferente às horas, indiferente à chuva e ao frio, imóvel, inútil, imprestável. Um morto no meio da cidade é uma peça estranha num puzzle frenético. E é quase obsceno porque nos relembra da nossa própria mortalidade. Agora estamos, no minuto seguinte não se sabe. Aproveitemos, então, enquanto estamos.

12 comentários:

alva quase transparente disse...

Ora nem mais. E a consciência disso pode ser aterradora. Para mim é :/
É viver ao máximo. Aproveitar tudo e em especial TODOS

alvaquasetransparente.blogspot.com

Só Maria disse...

Ai que dor! Ver, e tomar consciência, acima de tudo.
http://de-sabafo.blogspot.pt/

Mana Mais Velha disse...

Estava eu em Madrid de férias quando me aconteceu algo semelhante. Ia num autocarro turístico, mas tinha substituído o audio do autocarro pela música do meu próprio mp3. O dia era de um sol magnífico, a cidade, lindíssima, deslizava à minha volta, a música soava condicente nos meus ouvidos, e, de repente, uma ambulância parada em cima do passeio, uma senhora inanimada no chão, e dois médicos a tentarem a reanimação com uma massagem cardíaca feroz. O autocarro continuou a deslizar,impassível, a música permaneceu no seu ritmo imperturbável, o sol continuou quente e firme lá em cima, e à minha direita a imagem da senhora foi rapidamente substituída pelo movimento normal dos transeuntes numa cidade em hora de ponta. Nem um solavanco na engrenagem daquele dia.
Somos nada.

Miss Q disse...

Sem dúvida...temos mesmo de aproveitar e não nos chatearmos com coisas e pessoas pequeninas e sim valorizarmos os nosso amigos, família e ter saúde!

http://qaoquadrado.blogspot.pt/

Francesca disse...

Ai, que até me dá um arrepio na espinha! E com este tempo então, mais macabro fica o cenário. (MEDO...)

http://mefrancesca.blogspot.com

Sónia Chaby Martins disse...

Verdade, como num minuto somos tudo e no outro podemos não ser nada...

Paula disse...

Um bom momento de reflexão. Agora estamos, depois não sabemos. Há que aproveitar a VIDA enquanto a temos!
vidademulheraos40.blogspot.com.

pinchona disse...

adorei o texto!

andromaca disse...

«Portanto eu tinha um problema: justificar a vida em face da inverosimilhança da morte." (Vergilio Ferreira, Aparicao)

Juanna disse...

Foi mais ou menos o que senti quando disse adeus ao meu pai. Estava grávida, ia dizer olá mas também disse adeus. Curioso.

Kittie disse...

Tive uma sensação parecida quando ao aproximar-me de uma rotunda estava um aparato e fila enorme que há medida que foi avançando permitiu ver que mesmo ali no separador central à nossa esquerda estava um homem a ser reanimado. Eu tentei evitar olhar, e só pensei "o senhor se calhar ainda tinha tanto para fazer hoje!". De que vale a pressa dos nossos dias se soubermos qual o destino para onde estamos a correr (quem sabe nesse mesmo dia)?

as artes da xana disse...

oi sónia, só por curiosidade isso foi em que rua é que no outro dia li uma reportagem em que penso que era o pai do Paulo gonzo, acho eu que foi atropelado na via publica e em lisboa. seria ele????
xana