Há bocado cruzei-me com um morto. Eu ia para o ISPA (Instituto Superior de Psicologia Aplicada), fazer uma entrevista, quando vi um enorme aparato e uma ambulância do INEM a chegar. Não olhei muito, porque não é coisa bonita de se ver nem eu sou médica, mas de relance vi um corpo deitado no asfalto, uns pés estendidos e a equipa de emergência azafamada, ao mesmo tempo que um verdadeiro circo estava formado em redor. Estive uma hora e meia na entrevista e, quando saí, vi que havia ainda algumas pessoas, um silêncio peculiar, e polícia. Continuei a andar e lá estava o corpo envolvido numa espécie de papel prata. Pelos vistos, não foi possível salvá-lo. Não sei o que aconteceu, se foi atropelado, se teve uma doença súbita, se foi overdose, não faço ideia. Também já vi alguns mortos, em reportagem, e portanto nem sequer foi isso que me impressionou. O que ficou a mexer cá dentro foi aquele contraste entre a vida e a morte. O contraste entre os carros que não pararam de passar, as pessoas que continuaram a caminhar para a frente e para trás, o bulício da cidade, as buzinas, as gargalhadas, as discussões, a música que saía de um café mais adiante, e a inércia daquele corpo finito, indiferente às horas, indiferente à chuva e ao frio, imóvel, inútil, imprestável. Um morto no meio da cidade é uma peça estranha num puzzle frenético. E é quase obsceno porque nos relembra da nossa própria mortalidade. Agora estamos, no minuto seguinte não se sabe. Aproveitemos, então, enquanto estamos.
12 comentários:
Ora nem mais. E a consciência disso pode ser aterradora. Para mim é :/
É viver ao máximo. Aproveitar tudo e em especial TODOS
alvaquasetransparente.blogspot.com
Ai que dor! Ver, e tomar consciência, acima de tudo.
http://de-sabafo.blogspot.pt/
Estava eu em Madrid de férias quando me aconteceu algo semelhante. Ia num autocarro turístico, mas tinha substituído o audio do autocarro pela música do meu próprio mp3. O dia era de um sol magnífico, a cidade, lindíssima, deslizava à minha volta, a música soava condicente nos meus ouvidos, e, de repente, uma ambulância parada em cima do passeio, uma senhora inanimada no chão, e dois médicos a tentarem a reanimação com uma massagem cardíaca feroz. O autocarro continuou a deslizar,impassível, a música permaneceu no seu ritmo imperturbável, o sol continuou quente e firme lá em cima, e à minha direita a imagem da senhora foi rapidamente substituída pelo movimento normal dos transeuntes numa cidade em hora de ponta. Nem um solavanco na engrenagem daquele dia.
Somos nada.
Sem dúvida...temos mesmo de aproveitar e não nos chatearmos com coisas e pessoas pequeninas e sim valorizarmos os nosso amigos, família e ter saúde!
http://qaoquadrado.blogspot.pt/
Ai, que até me dá um arrepio na espinha! E com este tempo então, mais macabro fica o cenário. (MEDO...)
http://mefrancesca.blogspot.com
Verdade, como num minuto somos tudo e no outro podemos não ser nada...
Um bom momento de reflexão. Agora estamos, depois não sabemos. Há que aproveitar a VIDA enquanto a temos!
vidademulheraos40.blogspot.com.
adorei o texto!
«Portanto eu tinha um problema: justificar a vida em face da inverosimilhança da morte." (Vergilio Ferreira, Aparicao)
Foi mais ou menos o que senti quando disse adeus ao meu pai. Estava grávida, ia dizer olá mas também disse adeus. Curioso.
Tive uma sensação parecida quando ao aproximar-me de uma rotunda estava um aparato e fila enorme que há medida que foi avançando permitiu ver que mesmo ali no separador central à nossa esquerda estava um homem a ser reanimado. Eu tentei evitar olhar, e só pensei "o senhor se calhar ainda tinha tanto para fazer hoje!". De que vale a pressa dos nossos dias se soubermos qual o destino para onde estamos a correr (quem sabe nesse mesmo dia)?
oi sónia, só por curiosidade isso foi em que rua é que no outro dia li uma reportagem em que penso que era o pai do Paulo gonzo, acho eu que foi atropelado na via publica e em lisboa. seria ele????
xana
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